Armar a população, resolve?

Para uma já extensa contabilidade, mais um fim de semana violento, deixou 66 pessoas atingidas por disparos de armas de fogo na cidade. Deste total, 12 morreram, inclusive um jovem de 17 anos que levou um tiro no rosto durante uma festa na quadra em que morava. Não houve distinção por idade, as vítimas tinham de 11 a 62 anos. Nem de sexo. Quatro meninas adolescentes foram baleadas. Segundo dados da polícia, esses crimes ocorreram entre às seis da tarde da sexta-feira e a meia-noite de domingo passado. Ninguém foi preso em Chicago.

Sim, esses tiroteios ocorreram em Chicago, uma das maiores e mais bonitas cidades dos Estados Unidos. De acordo com a polícia, foi um fim de semana de violência “excepcional”, mas reflete um problema gravíssimo de criminalidade crescente que as autoridades e a comunidade locais ainda não conseguiram resolver. A polícia diz que não pode definir a natureza da maioria dos tiroteios — foram diversos ao longo dos dois dias —, mas nenhum deles tem semelhança com os típicos ataques a escolas americanas. As áreas mais atingidas têm níveis altos de violência e são guetos de gangues.

Parece o Rio. Ou Fortaleza. Poderia ser na periferia de São Paulo, ou de Vitória, mas foi em Chicago. O fato de haver violência nessas proporções em Chicago não justifica, elimina ou diminui o problema de segurança no Brasil. No Rio, o número de pessoas atingidas por tiros diariamente não é muito diferente. E pode até ser maior. Mas o problema levanta uma questão que está no centro do debate da campanha eleitoral. Armar a população não ajuda no combate à violência.

Como em qualquer outra localidade americana, os cidadãos de Chicago são autorizados e mesmo estimulados a comprar uma arma para proteger a si mesmos, as suas famílias e as suas casas. Mesmo assim, 66 pessoas foram baleadas no fim de semana passado em Chicago. Algumas em casa, outras na rua. O prefeito Rahm Emanuel e o superintendente de polícia Eddie Johnson disseram numa entrevista na segunda-feira que duas das causas são justamente a alta circulação de armas na cidade e a incapacidade da Justiça de punir os portadores de armas ilegais.

O discurso armamentista de Jair Bolsonaro tende a desmoronar diante desses dados. O capitão candidato já disse que se depender dele, toda pessoa maior de 18 anos terá o direito de comprar uma arma de defesa pessoal. Em entrevistas, ele repete que mulheres poderiam defender-se melhor de homens violentos se pudessem portar uma arma de fogo. E que residências estariam mais protegidas se houvesse armas em seu interior. Mas armas de nada adiantaram na proteção dos 66 atingidos e 12 mortos de Chicago. Em alguns casos, podem inclusive ter potencializado o drama.

Tama Manasseh, que há quatro anos lidera um grupo chamado Mães Contra Assassinato sem Sentido (Mothers Against Senseless Killing), disse à rede de TV americana ABC que os cidadãos têm que defender uns aos outros. “A polícia não vai nos salvar. A cidade não vai nos salvar. A cavalaria não está vindo. A cavalaria somos nós”, desabafou Tama depois dos tiroteios do fim de semana, de acordo com a ABC. O chefe de polícia Johnson reconhece que é positivo o apoio da comunidade: “estamos todos do mesmo lado”.

Nos últimos quatro anos, período em que essa mulher lidera o grupo de mães, a violência com o uso de armas de fogo cresceu sem parar em Chicago. Mas Tama Manasseh é persistente e parece ter pelo menos o princípio para a solução problema, e que poderia caber perfeitamente no debate eleitoral do Brasil. “Temos que tirar as pessoas de casa. Fazê-las abraçar a cidadania. No momento que tomarmos de volta o controle de nossos bairros e ruas, aí as coisas começarão a mudar”.

Ninguém sabe como será a transição do governo Temer para o do presidente a ser eleito em outubro. Nem um preparativo ainda foi feito ou pensado pelo Palácio do Planalto. E há muito que fazer, é como se montar um Ministério novo. Precisa de local, infraestrutura e pessoal. Apenas pessoal, algumas dezenas de cargos de DAS- 6, será definido pelo eleito. O resto tem que começar a ser montado logo.

Base: O Globo
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