Marina muda postura e traz outra dinâmica à eleição

O enfrentamento entre Marina Silva e o deputado Jair Bolsonaro no debate da última sexta-feira promovido pela RedeTV! levantou nalguns setores a esperança de que Marina seja a única candidata capaz de barrar a ascensão de Bolsonaro ao Planalto no segundo turno.

A ideia está baseada nas pesquisas, que dão sólida vantagem a ela num confronto contra ele, e num fato singelo: como mulher, Marina personifica em sua candidatura uma das maiores fragilidades do ex-capitão, sua dificuldade de aceitação no público feminino.

O pito que Marina passou em Bolsonaro (se não viu o vídeo, vale a pena), ao declarar que mães querem que seus filhos sejam homens de bem, deixa claro por que as mulheres resistem a um candidato que parece ter obsessão por armas e, sempre que questionado sobre temas complexos da sociedade ou da economia, parece recorrer a seu “posto Ipiranga”, o economista Paulo Guedes.

No debate, Bolsonaro se enrolou todo diante da excelente questão do jornalista Reinaldo Azevedo a respeito da necessidade de o presidente da República se envolver em decisões sobre o pagamento da dívida pública. Ao abaixar o som da TV, como recomendam os manuais de análise dos embates televisivos, era perceptível na hora a ignorância no olhar e a hesitação nos trejeitos – para não falar no despreparo na voz.

Para quem se animou com o desempenho de Marina, é importante lembrar que debates, a esta altura do jogo, têm influência mínima na decisão de voto. É com a entrada no ar do horário eleitoral gratuito, prevista para o próximo dia 31, que a vasta maioria do eleitorado começará a tomar sua decisão de voto. E, em que pese a bizarra ação do MDB contestanto a aliança que deu a Alckmin quase metade do tempo de TV, ele sairá com larga vantagem em tempo de propaganda.

É Alckmin, também, quem mais se beneficia do ataque de Marina. Criticado por não ter enfrentado seu maior rival – ele disputa com Bolsonaro o mesmo eleitorado antipetista –, não precisou sofrer o desgaste do ataque para provocar o dano no oponente. Marina fez isso por ele. Alckmin foi astuto.

Como escrevi na semana passada, Alckmin enfrentará todo tipo de dificuldade para crescer. Mas é extremamente improvável que Marina consiga carrear a quantidade de votos que a levaria ao segundo turno contra Bolsonaro.

Os motivos para isso são óbvios: ela não dispõe nem de alianças regionais robustas, nem de tempo de TV. Seu maior ativo, além do nome conhecido das eleições anteriores, é a baixa rejeição. Mas é possível dizer o mesmo de nomes pouco expressivos nas pesquisas como Álvaro Dias, João Amoêdo e o próprio Henrique Meirelles.

À esquerda, Marina enfrentará a máquina petista, incrustada em todo os estados, e o discurso eleitoral da perseguição ao partido, que tornará Fernando Haddad, depois do indeferimento da candidatura do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, um nome quase inevitável no segundo turno.

À direita, se mulheres conservadoras ou antipetistas resistirem a votar em Bolsonaro, dificilmente votarão em Marina. Ela ainda tem uma imagem associada à esquerda, devido aos anos que passou no PT (incluindo o período do mensalão) e à militância ambientalista. O mais provável é que as resistentes a Bolsonaro acabem escolhendo Alckmin ou um dos nomes acima.

Muito tem se falado a respeito do voto envergonhado em Bolsonaro, sobretudo no eleitorado feminino. A tese é que existe vergonha de eleitores e eleitoras em admitir o voto, para não sofrer resistência em ambientes sociais onde a menção ao nome de Bolsonaro pega mal. Como evidência dessa tese, costuma ser apresentado o exemplo de Donald Trump nos Estados Unidos.

Nem o exemplo nem a conclusão param de pé. De acordo com todas as análises de estatísticos e pesquisadores sérios, o voto envergonhado em Trump não passa de um mito. A Associação Americana de Pesquisas de Opinião Pública (Aapor) o desmentiu por completo em relatório do ano passado (a explicação está no item 3.2).

Não há trabalho comparável no Brasil. Mas, a não ser em círculos extremamente restritos da imprensa ou da academia (cujo peso eleitoral é desprezível), a tese do voto envergonhado também não parece fazer muito sentido por aqui. Partidos, empresários e brasileiros de toda sorte não têm nenhuma dificuldade para declarar voto em Bolsonaro.

Se hesitam na hora de falar algum nome, é o de Alckmin, associado a escândalos de corrupção e à velha política. “Provavelmente há um voto envergonhado em Alckmin, que se esconde no voto em Bolsonaro”, escreveu o cientista político Alberto Almeida em seu Twitter. É provável que ele tenha razão. Mesmo que esteja errado, não é verossímil que a beneficiária de qualquer dano à candidatura Bolsonaro seja Marina.

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