De heroi a presidiário: quem é Carlos Ghosn, executivo brasileiro preso no Japão?

Ele foi o único a presidir, ao mesmo tempo, duas empresas da lista das 500 maiores da revista Fortune: Renault, Nissan e Mitsubishi

Herói de histórias em quadrinhos. O Marido mais Desejável do Japão. Presidenciável no Líbano. Nascido no Brasil, filho de libaneses e formado em engenharia na França, Carlos Ghosn (pronuncia-se Gôn) tornou-se um dos maiores executivos do século. Foi o único a presidir, ao mesmo tempo, três empresas da lista das 500 maiores da revista Fortune: Renault, Nissan e Mitsubishi. O grupo se tornou o maior fabricante de automóveis do mundo, no ano passado.

Carlos Ghosn nasceu em Porto Velho, em Rondônia, em 9 de março de 1954. Deixou o Brasil um ano depois, ainda bebê, por problemas de saúde. “O médico disse à minha mãe que, se ela quisesse que Carlos sobrevivesse, precisaríamos nos mudar”, disse a irmã Claudine, à revista GQ. “Logo retornamos ao Líbano.” Ghosn formou-se na França, com diplomas de engenharia na École Polytechnique (1974) e na École des Mines (1978). Ghosn é fluente em português, inglês, francês e árabe. Fala um pouco de japonês.

Na fabricante de pneus francesa Michelin, entrou como trainee e subiu. Aos 30 anos, voltou ao Brasil, para dirigir a operação da empresa. Aos 34, virou diretor-executivo da Michelin nos Estados Unidos. Trocou a Michelin pela Renault, em 1996, com a ambição de se tornar CEO quando o chefão Louis Schweitzer se aposentasse. Após fechar uma fábrica na Bélgica e dispensar 3.300 funcionários, ficou conhecido como Le Cost Killer (o matador de custos).

O grande salto de Ghosn começou em 1999, quando foi transferido para o Japão, a fim de chefiar o investimento que a Renault tinha feito na Nissan – então, à beira da falência, perdendo dinheiro há oito anos seguidos. Quando Ghosn propôs à Renault dobrar a aposta na marca japonesa – assumir as dívidas e investir US$ 5,2 bilhões, o então vice-presidente da General Motors, Bob Lutz, disse que seria mais prático empilhar uma montanha de barras de ouro em um navio e afundá-lo no oceano.

Em três meses, Ghosn anunciou o corte de 20 mil funcionários, o fechamento de quatro fábricas e a adoção do inglês como língua oficial dentro da empresa. Para o Japão, foi um escândalo. Montadoras de carros, como a Nissan, são tradicionalmente dirigidas por japoneses. Tradicionalmente, mantêm com os funcionários uma relação de fidelidade para a vida inteira. Ghosn rompeu as tradições e prometeu dobrar a margem de lucro dentro de três anos. Conseguiu antes do prazo. Em 2003, prometeu aumentar as vendas em um milhão de carros e zerar as dívidas. Bateu a meta de novo. De Cost Killer, tornou-se conhecido como “The Fixer” (o consertador), herói de quadrinhos e eleito o Marido Mais Desejável no Japão. Seu autógrafo está pendurado na parede da fábrica em Yokohama — construída por decisão dele. Tornou-se um ídolo para investidores e operários. 

A meta de assumir a presidência da Renault também foi superada. Quando Louis Schweitzer se aposentou, em 2005, Ghosn acumulou a chefia das duas montadoras. Nunca antes alguém havia dirigido duas empresas da lista de 500 maiores da Fortune. Uma tarefa que a revista Forbes definiu como “o emprego mais difícil do mundo, para o qual não havia era possível pensar em um sucessor”. Para isso, passava dez dias no Japão, dez dias na França e outros dez pelo mundo – em especial, na sede da Nissan nos Estados Unidos. As visitas ao Brasil foram esporádicas, para inaugurar fábricas – como a de Resende, no Rio de Janeiro – ou em eventos, como as Olimpíadas de 2016 (patrocinadas pela empresa). Ghosn carregou a tocha olímpica. E festejou na quadra da escola de samba Acadêmicos do Salgueiro, também apoiada pela marca.

Ghosn definiu o futuro da aliança Renault-Nissan ao apostar pesado nos carros 100% elétricos – o Nissan Leaf, lançado em 2010, é o elétrico mais vendido da história. O Renault Zoe é o elétrico mais vendido da Europa. Quando a Mitsubishi Motors foi pega fraudando os testes de emissão de poluentes, em 2016, Ghosn salvou a empresa – e aumentou o império. O grupo Renault-Nissan-Mitsubishi fechou 2017 como a maior montadora do mundo, pela primeira vez na história, com 10,6 milhões de automóveis vendidos. O grupo emprega 470 mil pessoas, em quase 200 países, e tem 122 fábricas.

O executivo “insubstituível” se afastava aos poucos das funções administrativas – no ano passado, Ghosn deixou a chefia da Nissan, mas mantinha o comando do grupo. A prisãoaos 64 anos, no dia 19, por acusação de fraude, é um capítulo surpreendente para uma biografia extraordinária.

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