’82 votos e um segredo’

Aliados de Renan Calheiros transformam a votação para a presidência do Senado em mais um espetáculo vergonhoso. Recaem sobre eles as suspeitas de fraude na urna, feita para beneficiar o padrinho. É urgente descobrir quem tentou desmoralizar uma das mais importantes casas da democracia brasileira

No alto do plenário do Senado, atrás da Mesa Diretora, reside o busto de bronze de um senhor de vastos bigodes e óculos de aro redondos. Durante os vexaminosos episódios da sexta-feira 1 e o sábado 2, que definiram a vitória de Davi Alcolumbre (DEM-AP) para a presidência do Senado, o nome desse senhor, o ex-senador Ruy Barbosa, foi invocado diversas vezes. Não fosse de bronze, o busto de Ruy Barbosa teria corado diante do que presenciou. Na última tentativa de tumultuar o processo,diante da derrota do senador Renan Calheiros, arquitetou-se no Senado, casa da qual Ruy Barbosa é patrono, uma fraude. Na primeira eleição para decidir quem comandaria a casa, apareceram 82 votos quando há somente 81 senadores. Alguém votou duas vezes. O estratagema poderá sair caro para seu autor. O novo presidente do Senado quer saber quem foi o responsável pelo vexame. E a brincadeira poderá terminar em cassação de mandato.

Uma investigação foi iniciada para descobrir quem foi o autor da fraude e verificar se ela, de fato, pretendia tumultuar ainda mais o já conturbado processo que resultou na eleição de Alcolumbre. O pedido para a investigação foi feito na segunda-feira 4 pelo senador Major Olímpio (PSL-SP). “Parecíamos um centro cívico de escola desorganizada no dia anterior. Quando chega a votação, quando está mais do que em xeque a credibilidade do Senado, acontece um crime daquela natureza. Não dá para ser complacente com um crime. Isso tem que ser apurado. Deve-se aplicar o rigor da lei”, despejou Olímpio. Alcolumbre deverá pedir nos próximos dias a abertura de inquérito na Polícia Legislativa do Senado para apurar o que houve.

Na quarta-feira 6, o corregedor do Senado, senador Roberto Rocha (PSDB-MA), solicitou as imagens da TV Senado e do circuito interno do plenário. Ele também fez pedidos a emissoras de TV que registravam a sessão. “É um episódio lamentável”, disse Rocha. Aliado de Renan Calheiros, o senador José Maranhão (MDB-PB) classificou o episódio como um “equívoco”. Mas não pode ser considerado um “equívoco” engravidar a urna de votação com uma cédula a mais que o número de votantes. Para os senadores Sérgio Petecão (PSD-AC) e Esperidião Amin (PP-SC), o nome do que houve, ao contrário, é inequívoco: “fraude”.

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